O Artista e a Tela
texto de Jorge Fernandes para Mai Bavoso
Capão da Canoa Julho 2011
O artista encontra a tela
A tela nua espera a cor
Espera a sombra
A tela nua espera a luz
O artista encontra a tinta
Com o olhar de quem encontra
A primeira namorada
O artista e sua mão
São Pincéis de prata e aço
São pincéis de pluma e brumas
Deslizando sobre a tela
A mesma tela nua
Agora desperta do sono
Sobre a mesma tela nua
Nasce o prédio cinzento
E o riso da criança
Nasce a moça colorida
Encostada na janela
Nasce o lavrador e o campo
E a vida que brota da terra
Nasce o prédio cor de chumbo
E a angústia dos homens
Nasce o livro colorido
E o recreio na escola
Nasce a montanha azul
E o céu do verde mais claro
Sobre a mesma tela nua
Brota um cãozinho risonho
passeando na calçada
Nasce a chuva, nasce o vento
E o quintal cheio de flores
Nasce a morte, nasce a vida
Nascem risos de amores
O artista encontra a tela
E a tela encontra a vida
Não há encontro mais belo
Não há nada mais bonito
O artista encontra a tinta
E a tinta encontra a tela
E a tela encontra a vida
Não há encontro mais belo
Não há nada mais bonito.
Atelier Arte Café recebe equipe de Ciclismo
Ciclistas de destaque no cenário estadual foram recebidos no Atelier Arte Café,no jantar de sábado à noite. A equipe da Associação de Ciclismo do Vale dos Sinos (Acivas) esteve em Capão da Canoa no dia 16 de julho-2011, para participar com 20 atletas da prova de resistência do Campeonato Gaúcho de Ciclismo. A prova do sábado teve saída de Capão da Canoa, percursso até Osório e retorno à Capão. Entre os 20 ciclistas que competem dois são convidados da Associação, um de São Paulo outro de Chapecó. Quatro carros de apoio acompanharam a prova.
Na mesa principal do Arte Café estavam, entre muitos, o fundador da Associação Roberto Leite Rodrigues, seu filho, Roberto Leite Rodrigues Filho que é o atual presidente, o vice-presidente Werner Hartfelder, o bi- campeão gaúcho de ciclismo nas modalidades meio fundo e resistência, Everton Assis Camilo, da cidade de Carazinho, a Relações Públicas da equipe, Raquel Hartfelder.
Atualmente, a Acivas conta com 35 atletas que participam do Campeonato Gaúcho e da Copa União promovida pela Liga Riograndense de Ciclismo. Eles contam com patrocínio da Unimed.
Texto e fotos Andrea Hilgert
Amados Mai e Andrea,
Adoramos conhecer vocês! E, dizer isso, implica em dizer vocês dois e aquele espaço que transpira e inspira arte, aquela música, as pessoas, a comida, a bebida.
Queremos voltar!
Queremos desfrutar mais disto tudo e do largo sorriso de vocês, tão estampados nas vivas cores das telas e do coração acolhedor.
Queremos estar de corpo e alma, imersos na surpresa da noite com Arte. Na descoberta, no auto-conhecimento, na busca eterna do mais etéreo que podemos alcançar.
Chega de muros cinzas, de cargas pesadas e duras penas. Queremos muros pintados de alegria e gentilezas, queremos carregar somente aquilo que cabe na nossa alma e, que as penas, antes grilhões, voem e se libertem, escrevendo poemas no ar.
Viva a Revolução que a Arte faz em nós sem pedir licença!
Beijos e saudade,
Carla e Chico
A Arte do Café
por Ricardo Molina
Um café,
Um canto no canto,
Uma arte na parede,
Uma mudança no ser.
Ambiente com calor nos sorrisos,
Busca pelo melhor,
Tanto nas paredes,
Quanto nos olhos.
Somente um café,
Que nem todos Vêem,
E os que notam,
São agraciados com esperança no próximo.
Simplesmente um café,
Que lhe oferece calor,
Que lhe dá arte,
E lhe agracia com esperança.
Capão da Canoa, abril de 2011
À tartaruga, à tela do Mai
Ondas são minhas, eternas linhas
Em intervalo, em entrelinha
Espaço contado, respiro calado
Segundos de tempo
Em desalento.
Longe a canoa, a vida é boa
Linha normal, eu animal
Mar é caminho, peixe sozinho
Anzol pra fisgar, sabe sufocar
Mar que afoga, vicia e droga
Ódio do cais, nunca mais
Voltei, você viu?
Sou uma em mil
Mas como transpor: rede e pescador
Sobrou o coração batendo em tua mão
Grito em protesto: eu sou o resto
O resto da vida, vinda de antiga era
Agora colorida,aqui nesta tela
Ganhando os olhares admirados das janelas
Pensando: em que parede irei morar?
Quais serão os olhos a me contemplar?
Mesmo eu, assim tão longe do mar.
Marcelo Poeta
Arte Café
Abril 2011
Momento Belo
por Eleonora
Há algo assim
dentro de mim que é teu
quando te vejo, revejo
desse jeito feliz
Há algo que pulsa
Chega num palco e dança
grita poesia, vira criança
e se faz canção
Essa coisa de ir à luta na vida
e tornar-se, em vida,
coração
Há algo que nunca termina
que permanece latente, caliente
ultrapassa o horizonte
e beija a minha fronte:
a tua boa notícia!
E esse algo que tudo carrega
é energia, é entrega
é saber que o fruto vai brotar singelo
e ficar maduro
e que quase tudo que nos acontece
até as dores
que nos arrefecem
poderão tornar-se em frente
transcendentemente
um momento belo!
25.03.11
A Arte da Saudade
por Eleonora (Elê)
De repente esvaio-me em poesias
O fato é que desde que lhes conheci
virei música e poesia
Ouço mil melodias,
cantarolo aqui e acolá.
Crio frases
testo rimas...
Tudo pra dizer
que senti muitas saudades!
Saudades de ti
Saudades daqui
Saudades de cada um
Saudades deste palco
Saudades das suas luzes
Saudades da tua quietude
e saudades das tuas palavras (Marcelo)
saudades das suas vozes (Gi e Cláudia)
saudades da tua amizade (Magda)
saudades das suas artes (Mai, Zé e Andrea)
Saudades do teu violão (Dado)
Saudades da êxtase deste lugar!
Tantas saudades
que nem sei...
Saudades do abraço que darei
saudades que, emfim, transmutei
pra poder estar aqui
e ser
somente ser
mais,
muito mais,
Feliz!
25.03.2011
"Meu sonho é brincar com as notas musicais como brinco com as tintas"
Mai Bavoso
Na estrada
Estava quente
um cão com um palmo de língua
entre os dentes
101 dobrando
estrada a frente
Até onde meu lar?
Jundiaí ou Capela?
Tempo passando
paisagem riscando a janela
e ela pisando
Não sei se vou ou voltando
Paisagem arranha a janela
e ela ficando
(Texto de Mai enquanto voltávamos de Capão da Canoa numa segunda-feira quente, trazendo conosco
o Bavosinho, um boxer com quatro meses). Novembro/2010
FLORES DO TELHADO
VERMELHAS GUERREIRAS
TREPADEIRAS EXPREMIDAS
PAREDES QUE CERCAM
SUAS CORES ENCANTADAS.
SOBREVIVEM! ENTRE VIDAS DOÍDAS
SOBEM AO CÉU!
ENFEITANDO O VÉU CELESTE
ESTAMPAM! OS LENÇOIS BRANCO-CINZA
NUVENS PRESENTEADAS! .
GALHOS DE SALVAÇÃO DE TODA A CRIAÇÃO,
DO POUCO QUE SE VÊ DAQUI.
O BELO CONTEMPLADO
BELEZURA DO VIVO
VIDA NO TELHADO.
PÉTALAS ESPALHADAS
UM JARDIM SOLITÁRIO
TREPADEIRA SUFOCADA!
PARA O AZUL QUE APONTA
SEU VERMELHO QUE ESTAMPA
MALVADOS TELHADOS!
QUE APRISIONAM O PERFUME EXALADO
FORTES CUMES ESCALADOS!
AJARDINANDO O TELHADO!
TELHADO DAS MARIAS...
VERMELHAS DE AMOR...
Um tempo: abril-2010
Pedro Porcher Neto
(sobre o Arte Café - Paseo Kolman - Capão da Canoa)
Mundo paralelo
Você passa em frente e vê algumas mesas, umas telas espalhadas no fundo e algumas pessoas de avental ou não. Talvez não entenda o significado daquele espaço e siga adiante. No entanto, se decidir entrar, dispa-se das vaidades, da soberba e do olhar critico. Entre com todo o respeito, pois ali dentro se cria um mundo novo. São artistas trabalhando nas mais diversas artes, pintura, escultura, música, fotografia, escrita com poesias e crônicas. Através da visão de cada um espelham seus sentimentos e os transportam para a tela num mundo maravilhoso de cores. Ali você tem oportunidade única de ver o artista criando, e pode ver a aura que o cerca neste momento. E a alma de cada um transportada para uma tela, uma voz, um papel. O único objetivo, senão o principal é a captação de pessoas que venham participar deste mundo mágico. Transformar o Arte Café numa fraternidade onde a cultura é o tema e o foco principal. E você perceberá, que ao sair de lá, você deixou de ser a mesma pessoa que entrou, pois a cultura, em todas as suas manifestações, é, sem dúvida a mais sublime e transformadora das artes.
Rubens Lace
Eduardo Bavoso
por Andrea Hilgert
Irmão de Mai, Eduardo Bavoso veio de São Paulo em fevereiro deste ano de 2010 para fazer parte do projeto Arte
Café. Além de comercializar as obras de arte de Mai, Zé Martins e Andrea Hilgert no litoral, Eduardo gerenciará o
café do atelier no Paseo Kolman, ao lado do responsável pela gastronomia, Leandro Lanz.
Não é a primeira experiência de trabalho junto ao irmão. Em 2002 Eduardo conheceu o making off do mundo da arte no
Rio Grande do Sul, participando da Fimec em Novo Hamburgo, ao lado de Mai, e de diversas exposições importantes no
decorrer daquele ano.
Foi uma grande mudança. Acostumado a mostrar as características e vantagens de produtos de informática para vender
peças e serviços, Eduardo se deparou com a arte. "As telas se vendem, as obras do Mai saem de uma maneira alegre,
as pessoas ficam fascinadas pelas cores vibrantes,visualizam as obras em suas paredes. Um experiência fantástica."
"Voltei ao Rio Grande do Sul para dar continuidade à um projeto antigo do Mai, de compartilharmos a companhia de
irmãos trabalhando juntos." Mai é o mais velho dos quatro filhos de dona Tereza e do senhor Osmar Bavoso. Eduardo é
o segundo.
Lembranças
Eduardo acredita que o artista nasce pronto,e o tempo e o trabalho o lapidam, como um diamante. "Desde a infância
Mai era uma criança diferenciada. Sempre com bom humor, fazia caricaturas de todo mundo. Lápis, canetinhas
hidrocor, guaches, eram sua diversão preferida. Quando não estava soltando pipa, jogando bolinhas de gude ou
futebol, estava com papéis e lápis coloridos,e nós, os irmãos, em volta só observando o que iria sair.
Tínhamos uma criação bem rígida,e nossa mãe, grande Teresa,não deixava brincarmos na rua sem a sua supervisão. Com
a criatividade do Mai, soltavámos pipas de dentro do nosso quintal,com vento ou sem vento. O Mai fazia as pipas,
mariposas, barreletes e maranhões subirem num espaço inacreditável. É lógico que algumas enrroscavam nos fios ou
nas antenas e os nossos vizinhos detestavam... Sobrava sempre uns puxões de orelha da dona Teresa.
Os colegas da vizinhança ficavam admirados com as criações das pipas do Mai. Nosso tio Neno ( ex - piloto ), sempre
quando vinha nos visitar, ensinava suas técnicas, e a imaginação ia longe. Às vezes nossos papagaios e pipas eram
laçados pelos bad boys de rua com linhas cortantes. O Mai ficava indignado, e falava bem baixinho, - vamos lá fora
recuperá-las?? Eu ia no vácuo, - sim vamos. Lá fora a confusão estava feita, o Mai era duro na queda, sempre
recuperava as pipas. Na volta para casa, a encrenca era com a mãe.
O Mai também já foi um habilidoso goleador, cortes rápidos e chute certeiro pelo lado direito. Seu forte era o
futebol de salão. Tínhamos em nossa família a influência do Osmarzão, nosso pai que foi um craque no futebol,e se
jogasse em nossos dias poderia ser profissional. Muito presente em tudo que fazíamos, o Osmarzão nos levava para
pescar. Enquanto os peixes sobreviviam nas bacias de alumínio eram atentamente observados por Mai.
Hoje, quando vejo em telas as pipas, peixes, cores vibrantes, ligo a nossa simples mais feliz e criativa infância
no interior de São Paulo, em Jundiaí.
Durante um tempo de nossa adolecência praticávamos muitos esportes. Me apaixonei pela capoeira, e fui passando
algumas técnicas para o Mai e meus outros irmãos Davi e Alexandre. O Mai estava sempre comigo nos batizados (
graduações ) e apresentações nas grandes rodas. A música, a batida dos tambores, o gingado nos atraia, sem contar
que algumas vezes nos foram úteis também nas nossas brigas de adolecentes.
Sempre tive orgulho de ser irmão de um grande artista e me sinto lisonjeado por estar assessorando Mai novamente no
Paseo Kolman, espaço especial onde cultura, beleza, alegria caminham juntas.
Ironia
Gostaria de começar esta página falando de cores e das maravilhas da arte.
Desculpe-me por iniciá-la com um apelo: Não reaja.
A violência e insegurança em nossas cidades está mudando drasticamente o nosso comportamento.
Meu país hospedou na cadeia, o governador de sua capital. Corrupto julgado e condenado
por corruptos, num sistema corrupto e antropofágico.
Nos falam em gastos e somas absurdas, onde um assassino covarde
custa mais aos cofre públicos do que um pai de família
recebe trabalhando.
Ajudam suas famílias, dão-lhes advogados, psicólogos, e tudo aquilo o que
negam a um trabalhador .
Esse subproduto humano, que dispara o gatilho, é apenas um resultado.
Se reação houver, que seja lá em cima, nos planaltos e palácios, nas igrejas e nos bancos.
A bala é o juro.
Vejo na TV, penitenciárias em ruínas e apenados sem colchão. É isso que tanto custa?
Mais corrupção.
Tudo é corrupção.
Pagamos por ela.
Nossos empresários pagam por ela.
Deveríamos ganhar royalts por este grande negócio.
Rende muito mais do que o pré-sal.
Não reajam. Somos ovelhas pastoreadas por lobos e só temos como defesa o número.
Ironicamente, a arte passeia por este cenário e com otimismo constrói e humaniza.
Este é um dos principais projetos em que estou envolvido.
Um grande mural com mais de 100 metros quadrados no Centro de São Leopoldo.
O nome do painel é Organic.
Folhagens naturais usadas como estencil, no tapume de um canteiro de obras.
São espécies nativas colhidas no entorno. Desenvolvimento urbano e qualidade no meio ambiente,
meta a ser alcançada.
Agora, a receita do mês: Junte crianças, tintas coloridas e uma vaca.
Coloque tudo num bom ambiente de aplicativo, tipo um atelier Fazendo Arte.
Procure uma mulher de muito talento e dedicação, com experiência e pelo menos 25 anos de estrada,
para mexer o caldeirão. Pronto! É só se deliciar com o resultado.Neste espaço, há quase quatro
anos, faço minhas oficinas de acrílica sobre tela para adultos e adolescentes.
Uma atmosfera lúdica, onde fica fácil pintar como criança. Parabéns a Simone Schilling.
Mai Bavoso
Em movimento
Durante muito tempo era vanguarda a arte andar
em ‘movimentos’.
Artistas de todas as linguagens manifestavam-se
em grupos e o tema preferido era a contestação.
Os mais saudosistas ainda choram as mudanças
inevitáveis e implacáveis.
Hoje, a própria arte é a contestada. Se algo é
bonito e fica bem na sua sala, ‘Deus me livre’!
Isso não é arte, é coisa pra ser consumida, comercial.
Tem que ter efeitos especiais, espelhos, luzinhas,
vídeos com imagens incompreensíveis. Coisas em 3D
também são ‘bacanas’ e, se for bem feio, melhor. Mais
impactante se nojento ou macabro.
Todo modismo passa, mas o que importa é a liberdade
de expressão, é o experimentar, sem preconceito.
Ninguém sabe mais de arte do que o artista que a exerce e
que dela ganha sua vida.
Por mais moderna que seja a boa cozinha, ainda precisa
de calor e fogo, o mesmo que assava a carne nas cavernas.
A arte é o movimento.
Fui convidado recentemente para expor algumas telas
ao lado de ícones de nossa região e me senti envaidecido.
Gerações diferentes como as linguagens expostas. Todos
atuais e contemporâneos, do seu jeito, fazendo o que sabem.
Colegas, não importam os cabelos brancos ou nossa recém adquirida
cara de uva passa.
Arte não envelhece, amadurece.
Quanto ao artista, temos a alma livre e, se assim mantida,
será sempre jovem e criativa.
No www.maibavoso.com.br você pode acompanhar bastante
movimento artístico no verão de Capão da Canoa.
O Paseo Kolman está virando referência cultural no Litoral Norte.
Música, pintura, fotografia, escultura e gastronomia num beco com saída.
Arte pura e feita ao vivo, sem perfumaria.
Mai Bavoso
Sobre Vênus
Poderoso tempo, pai de todo destino.
Orienta-me a não tanto perdê-lo.
És tudo que tenho e ainda assim me parece tão pouco.
Quero-te mais.
Prometo não mais matá-lo.
Conto-te um segredo: pinto só para agradá-lo.
Quem sabe, se gostares destas tantas cores
serás generoso preservando-me em seus domínios?
É tão difícil bem aproveitá-lo e ainda por cima
me fizeste libra.
Alinhaste todos os planetas e logo sobre a minha
cabeça, caprichosamente Vênus, tão linda e sedutora...
Considere, até Zeus enlouquecia e vivia saindo casinha
por causa dessa deusa do ar.
E eu, pobre e indeciso mortal, tão longe de um Olimpo, entre a
poesia da arte e o concreto da cidade procuro-te desesperadamente.
Às vezes uso da saudade e te busco no passado, noutras ouso
projetar-me mais adiante tentando adivinhar-te.
Continuarei procurando e não escondo, meu maior desejo é
aproveitar-me muito bem de ti.
Por tanto ama-lo quero transpo-lo.
Sonho de artista é acompanhar-te e virar memória.
Me leve na lembrança e "que o tempo nos seja leve".
Mai Bavoso
OS DEUSES
A curiosidade me levou as artes, transportando-me
a muitas formas de cultura.
Cada uma com suas crenças e um deus ou deuses
semelhantes a seus devotos.
Uma criação artística é sempre um gênesis.
Inspiração, um sopro e depois da obra concluída, o descanso.
Criar é no escuro, mesmo a tela sendo branca, como
é branco o papel ou o mármore que ganhará forma.
O vazio é negro e é nele que traçamos planos e formamos imagens.
A sensualidade e inteligência da antiga Grécia e seus divinos no olimpo.
Complexos e enigmáticos,
perversos e doces, podendo transformar-se em chuva de ouro apenas para
impressionar a amada.
O guerreiro deus de Judá que das trevas fez a luz e da terra
esculpiu a humanidade.
Um Buda contemplativo meditando numa terra de famintos onde
vacas não viram hamburguer.
Teriam os deuses criado a arte ou essa os concebeu a imagem e semelhança
da cultura local?
No alto Xingu, Mawutsinim que tudo criou, era índio. Brincalhão e generoso desenhou
animais nas estrelas e fez caminhos no céu para orientar seus filhos.
Um Cristo judeu, louro de olhos azuis ? Ou negras entidades que adoram tambores, pimenta
um bom tabaco com muita música e destilados. Isso me parece coisa de artista.
Já estamos chegando naquela parte do ano em que todo bom comerciante se lembra de Jesus
e palavras como “solidariedade, fraternidade e amor” estarão em alta, pelo menos até a ceia.
Uma enxurrada de cartões desejando coisas com lindos clichês de prosperidade.
Preparemos as lentilhas e os bolsos que aí vem papai noel.
Um divino verão a todos.
Falando em verão, convido a todos para conhecer
o Atelier de Arte Café Cultura, no Paseo Kolman, em Capão da Canoa.
Pintura, escultura, fotografia.
Café, boa música e gente bonita.
Excelente receita para cuidar do espírito.
Desabafo
Ser artista as vezes é muito difícil, pois exige do profissional
necessariamente reflexão e sensibilidade.
A dificuldade não está no sentir ou refletir em si, mas nos efeitos colaterais
desta atitude.
Tornar-se mais crítico é um deles.
O individuo corre o serio risco de ficar chato e ransinza perdendo a oportunidade de aproveitar das muitas maravilhas do nosso mundo moderno.
Esse risco ainda é maior para um cara da minha geração, que tinha Chico Buarque como
uma das referências de música popular brasileira.
Buscava-mos informações, lia-mos até baboseiras orientais, divertia-nos pensar
talvéz por ser proibido , coisa de adolescente quem sabe.
Informação era artigo de luxo e coisa perigosa e por isso mesmo transgredia-mos.
A covardia e a violência física daquele poder forte mas burro parecia ser a maior crueldade possível para um povo tão feliz e promissor.
Como estava-mos enganados!
O poder enfim mudou de mãos e essas ainda mais cruéis.
Dinheiro compra inteligência e com ela emburreceram a nação.
Toda a informação hoje disponível para tantos, pouco vale pois os instrumentos são usados
para fins banais.
Não se discute política,gosto nem religião.
Ok.
Festa de 15 anos passou a ser regada por «funk» com letras de uma poesia monstruosa e rica.
Nossos universitários ouvem as mesmas preciosidades porém com as variações rítmicas
do pagode e sertaneja quase legítima afinal, gosto não se discute.
A fé rende mais que os bancos,e a política...
O que mais me espanta não é a sujeira e a corrupção mas que apesar de tudo ainda funcione algo.
Que pessoas maravilhosas são essas que empurram essa pesada máquina obsoleta e tão estragada?
Mesmo saqueado permanentemente o Estado ainda oferece algum tipo de condição para saúde,
temos algumas estradas trafegáveis , escolas com professores e tudo!
É realmente espantoso mas até iluminação pública em determinados lugares e com um pouquinho de sorte, uma viatura com alguem confiável pra te dar segurança sem pedir um «presentinho» ou aplicar uma multa.
Essas pessoas me dão esperança e ânimo, afastando o pessimismo que encurta e empobrece nossas vidas.
Espero que esses poucos, antes de se cansarem, fortaleçam-se com todo o peso carregado.
Acredite, existem bons pagodes e sertanejas belíssimas.
Podemos nos divertir com coisas inteligentes.
Temos bons líderes religiosos em muitas e diferentes crenças.
E pelo pouco que funciona, apesar de seus partidos, alguns políticos com vergonha na cara.
Quero parabenizar a Secretaria de Cultura de Novo Hamburgo pelo Salão de Arte que traz como tema o sapato.
Sapato que por aqui é mais que um simples produto, é pão e poesia.
Que esse acontecimento seja um sucesso, perpetuando-se.
Mai Bavoso
Sobre o livro "A escolha de Ariadne"
Multidão:
Aglomeração de pessoas, massa humana disforme e sem rosto, composta de indivíduos com rosto e forma
Se enfurecida, incontrolável, perigosa; se comovida, incontrolável, generosa.
Encontrada frequentemente em grandes cidades, movimentando-se pelas artérias principais.
Posiciona-se de diversas formas:
Em filas de espera buscando poucos direitos distribuídos por quem a controla.
Em estádios de futebol dividida em cores e anseios crendo em um Deus que joga nos dois lados.
Em igrejas, templos e sinagogas procurando um único deus dividido em milhares.
A força está no número, a importância no voto.
Facilmente desarticulada por tiro ou vírus.
À sua margem olhares atentos deliciam-se com individualidades.
Esse é o caso. A artista e sua arte personalizam figuras, nos lembra que cada número é único.
Pessoas como pacotes de flores ou um campo delas.
Flores envoltas por jornais discursivos escritos por gente que informa multidões.
Seriação de humanos, que vista do alto, formigueiro. Vista pela artista, médico, operário, estudante, sapateiro, amante, amor.
Mai Bavoso
A alma na tela
O que, não sendo um artista, você vê numa tela branca? Falando por mim, nada. Mas como um artista a vê? A possibilidade de derramar naquela tela um pouco de suas emoções, muitos pensamentos, ternura, raiva, enfim uma mistura de sentimentos, que, como as tintas, se espalham em traços inicialmente vagos, para, no fim, transformar-se em uma obra. Uns com genialidade impressionante, outros apenas a expressão crua de seus sentimentos. De qualquer maneira, digna de admiração. Senão pelabeleza, mas por você visualizar em cada pincelada uma dor, uma alegria, uma lágrima furtiva.
Traços precisos, riscos que num primeiro momento não nos dizem nada, mas cada detalhe compõe o que, no fim, é uma maneira de exprimir paixão com o que foi feito.
Por incrível que pareça, em uma obra única, um tocador de violão sentado em uma mesa de bar, permiti-nos visualizar o som do instrumento, tocado talvez com a mesma emoção do artista que o criou.
E nos deixamos levar, pelas nuances das cores espalhadas, para o mundo que o artista imaginou...
Texto de Rubens Lace
Foto: Atelier em Capão da Canoa
O que me interessa?
Mais jovem, as dúvidas causavam-me ansiedade.
Hoje, as mesmas provocam reflexão e serenidade.
Não assustam. No máximo preocupam.
A repetição de nossos gestos e discursos,
nos dá instrumentos para lidarmos com o dia-a-dia.
Lidar com a vida, dia a dia.
A experiência do tempo bem trabalhado é como
ajustar um foco aumentando a nitidez e
a compreensão.
Quanto mais executo uma música, melhor a toco.
Experimentar sempre!
Recriar-se em cada ideia repetindo a fórmula.
Repetir a fórmula, mesmo que contendo algum erro
ou equívoco, leva ao estilo.
Estilo que nada mais é do que falar de qualquer coisa
com seu próprio sotaque.
Muito bem. O problema todo é que tem uma
coisa chamada emoção.
A emoção causa sensações. Ou seriam as sensações
que causam as emoções?
De qualquer forma, essas sensações emocionais
embaralham a visão.
Sinto todas elas na barriga, no ventre. Mas,por cultura
aprendo a percebê-las no coração, e tratá-las, como
se fosse possível, no meu cérebro.
Acho mesmo é que todas as minhas sensações
acontecem primeiro na barriga e, quanto mais vivo,
menos consigo catalogá-las.
Esse nosso mundo de novela dá poucas opções de classificação.
Vendem o sentimento como se fosse algo nobre, divino, algo a ser
protegido e respeitado ao extremo.
Ora, ciúme não é sentimento? e a inveja, o ódio, a ira e tantos outros não
tão nobres?
Às vezes acho que as coisas que sentimos são tão variadas e inúmeras
quanto formas de vida na Amazônia.
Tem muita coisa ainda a catalogar. Tem muito bicho sem nome.
É bem isso, sinto coisas como bicho sem nome.
- “Você não respeita meus sentimentos.”
Talvez não mesmo. Alguns não merecem tanto respeito.
Quero moldar o que sinto para melhor, para a nobreza de ser humano.
Fazer das minhas ações a minha arte.
Se a árvore do bem e do mal continha a consciência de tal, então Eva não conhecia
a maldade. Teria pecado por curiosidade? Seria a curiosidade um pecado mortal?
Que seja então! Agradeço à ela pela coragem, pela ousadia, e por tudo mais que tenha sentido.
Seu sentimento foi forte e puro, pois não trazia a noção do bem e do mal.
Deixo uma dica: “Lenine, Labiata”. Maturidade, profundidade e muita arte.
Também convido meus amigos a conhecerem meu atelier de arte em Capão da Canoa.
Paseo Kolman, um lugar que, de tão bonito, nem parece existir.
Café Cultura é o nome do espaço. Muita gente boa da música, da plástica e de outras linguagens
passarão por lá neste inverno. Veja no site maibavoso.com.br.
“Quando eu olhar pro lado
eu quero estar cercado
só de quem me interessa”
Natais
Minha primeira viagem ao Xingu foi completamente mágica
em todos os detalhes.
Tudo era novo mas um fato me marcou.
Logo na chegada, descarregando provisões para um mês de estadia,
um menino de 11 anos ensinou-me a respeitar sua nação, sua tribo, sua raça.
Olhando meus pertences notara meio pacotinho de biscoitos e com um português
sofrido pediu-me.
- Caraíba, dá biscoito?
Entreguei-lhe o pacote e notei que com ele estavam pelo menos mais 15
indiozinhos.
Eles têm fartura mas a novidade instiga e atrai principalmente as crianças.
Pensei, não vai dar nem pro começo e me voltei à sacola para pegar mais.
Quando me viro novamente com os biscoitos, o menino estava quebrando pedacinhos
e servindo seus iguais.
Dividindo, não importasse em quantas frações.
Não são Cristãos, judeus ou budistas, são apenas humanos.
O divino reside em seus espíritos.
Amar é a arte mais elevada e por isso mesmo deve ser exercitada diariamente.
Nesta época nossas cidades ficam mais iluminadas e as pessoas parecem mais generosas.
O problema é que tudo passa muito rápido e o fenômeno acontece apenas uma vez por ano.
Amor, fraternidade , respeito...
Parece propaganda de liquidação de natal.
Sei que essa conversa é meio piegas, mas e daí?
Gente muito mais importante deu a vida para nos lembrar que somos mais que uma conta
bancária.
Um fraterno e feliz Natal para todos os homens com alguma vontade.
At Perguntinhas inocentes
Abro minhas mensagens com um certo receio.
Aquela pessoa inteligente, simpática e interessante
que conheci naquele evento, escreve na teia que
não é a sua própria, e sim a mundial e super
poderosa Internet.
Clicar em “abrir” fica tão nervoso quanto abrir a
velha carta de papel que pulsava pelo correio.
Teria a nova amizade algo a dizer que
prolongasse o prazer do último encontro,
consolidando assim, a admiração? Ou uma daquelas
que têm que apertar e esperar aquele segundo
secular para escutar uma musiquinha levemente
piegas com um texto que vai do cristianismo a
física quântica?
E as fotos...Aquelas fotos de coisas tão lindas que
parecem de plástico chinês! One, nine, nine.
Não suporto toda aquela pureza de espírito. Velhas
parábolas de visual futurista soltas no espaço do
meu monitor.
É muita virtude pra um cara simples como eu.
Me dão conselhos, querem me confortar, me dizem
várias verdades, crédo! E ameaçam-me: se eu não
entrar na “corrente” estou ferrado.
E eu nem gosto de correntes, lembram-me
escravidão. É que a avó da minha mãe era negra,
sabe como é...
Frases feitas, música fácil e imagem óbvia.
Prefiro esperar ao abrir. Qualquer coisa, o computador
estava com problema. Quem não concorda que o computador
sempre dá problemas?
Tenho hálibe.
Dia desses recebo uma assim:
“Perguntinhas”.
Uma certa revista com um pequeno questionário indagando-me algumas
particularidades.
Pensei, vem de uma pesoa que já admiro, ou seja, tem crédito.
Ok. Vou devolver “respostinhas”.
Procurava palavras adequadas para as perguntas e não as encontrava.
Ué, não eram para ser perguntinhas?
Percebi que fora pego de surpresa.
Sabe quando acontece algo e você fica sem ação, gaguejando ao
invés de dar um daqueles dos seus argumentos desconsertantes?
E depois pensa, eu poderia ter dito qualquer coisa, por que não disse nada?
Qual é o meu sonho de consumo?
O que é a felicidade, a vida, a arte?
E agora?
Tenho que responder, e não qualquer resposta.
Quero algo inteligente. Um posicionamento racional e equilibrado.
Afinal, tenho um papel social. Que papel social?
Fico como quele menino que teve branco na sabatina, lembra?
Esqueci tudo, ou pior, nunca soube?
É, realmente, o simples não é fácil, e estilo...talvez seja errar sempre de um
jeito só!
E agora, todo mundo já sabe quem matou Taís!
Aquerenciado
Dia 20 de setembro,comemoração nas ruas de São
Leopoldo e eu aproveitando o feriado para adiantar a pintura de um grande mural
no centro da cidade.
O dia era branco , com cara de chuva que não combina bem com tinta acrílica fresca.
Estava compenetrado e não percebi a chegada da gauderiada montada em desfile pela rua
Trabalhava agachado na parte baixa do muro e quando olho pra cima vejo um cavalo
e, em cima desse, um gaúcho familiar.
- Tu é paulista de nascimento mas gaúcho de coração!
Me senti aquerenciado.
Palavra esquisita
Pra quem sabe no peito o que é o extremo sul, sem palavras.
Pra quem não sabe, sinto muito.
Recordei minha chegada nessa terra.
Noite fria e muita bruma, mês de agosto.
Acordes, sons de cordas firmes e orgulhosas de sei lá o que saiam de portas de bares da rua grande
Pensei, o que será que tanto reverenciam?
Não sei, só sei que contagia.
Tudo tão honesto que mesmo sem compreender, senti
e sentir pareceu-me suficiente.
Essa gente tão bonita que se mostra em camadas, como crianças.
Crianças maduras.
Querência é mais que um lugar.
É um lugar amado, querido, e ser querido aqui é uma conquista.
Uma coisa é certa, esse povo nunca terá cabresto!
Fazer esse painél foi muito especial para mim.
Mais que a pintura em si a participação das pessoas
foi a grande motivação.
Gente de todas as tribos, idades e classes sociais
passaram por mim nesses três meses de execução
dando sujestões, opinando, participando de várias maneiras.
No final do trabalho o mais bonito, aplausos vindos de uma janela.
Uma moradora do prédio da frente feliz pelas flores pintadas.
É, acho que essa é minha querência.
Química das cores
Dizem que a ciência é irmã da arte.
A matemática da música.
A química das cores.
Lembro claramente de dezenas de
vidrinhos de perfume que eu reaproveitava
com minhas fórmulas coloridas.
Alinhava-os lado a lado numa velha prateleira
no meu primeiro atelier laboratório.
O que continha o líquido amarelo ao centro,
os laranjas e vermelhos à direita e para a esquerda
verdes, azuis e violetas.
Com meus dez anos, a intuição me mostrava a lógica.
Para mim esse jogo fazia sentido, criava elos entre as cores.
O que parecia apenas um jogo, foi na verdade minha
iniciaçao na alquimia da arte.
Têmperas, pigmentos, tinta de caneta, folhas, flores,
tudo o que permitisse a extração de alguma cor virava material
de pesquisa.
O interesse aumentou com o passar dos anos
Os vidrinhos já continham tintas que misturadas, criavam cores.
Papél, madeira, tela de algodão, cada novo material de
suporte oferecia novos resultados.
A repetição desenvolveu técnicas e a paixão motivou
a pesquisa.
Hoje trabalho com cinco cores de pigmentos e com a ajuda
da tinta branca como veículo, crio elos para todas as
outras presentes nos meus quadros, nos meus sonhos.
A Arte
Sou artista por escolha própria, amo a arte e
adoro o que faço. Se ninguém me pagasse faria da mesma forma.
Acho que isso responde, é um privilégio assim como todo profissional,
independente da área de atuação, que realmente produz o que gosta.
O belo, o equilíbrio, a insatisfação, a revolta, a felicidade, o que sinto,
tudo depende do momento vivido, individual ou coletivo.
Minha forma de expressão, a minha cara e meu sustento, meu estilo.
Inspiro-me pintando.
A arte é pra ser sentida. Questiono muito sua total compreensão.
Conceitual me parece muito vago, gosto de tinta, pincéis , cores e desenhos
e cada vez mais os salões e bienais nos mostram o inatingível.
Quanto mais estranho e indecifrável maior seu espaço na mídia,
que em sua maioria também não entende nada de arte.
Talvez em breve precisaremos de uma bula para sabermos a forma de aplicação.
Eu continuarei a pintar, desenhar, esculpir...
Para desconstruir a arte, como hoje mandam os acadêmicos,
teremos de construí-la primeiro.
Cuidado contém porânio !!!
Mai Bavoso
Giro em alta velocidade
como faz o crocodilo
pra arrancar seus bocados.
Às vezes, igual ao cão,
que sem direção,
persegue o próprio rabo
A cigarra e a formiga
Era uma vez um certo escritor francês .
Pra azar das futuras gerações de artistas seu maior sussesso
chamou-se “ A CIGARRA E A FORMIGA”.
Conta a fábula que enquanto a formiga trabalhava
a cigarra só queria cantar e tocar.
Ele nem imaginava o trabalho que dá tocar, cantar,
pintar, representar ,eculpir,...Bem se diz que todo
virtuosismo é precedido pela servidâo!
Depois do seu livrinho ,artista levou fama de boa vida,
e até hoje uma pergunta muito comum arrebata meus ouvidos
“ você só pinta ou trabalha também?”
Dos primeiros desenhos nas cavernas ao designer dos carros de última geração
já se transpirou muito!
Vitrais suntuosos,imagens de santos de todos os credos...
É senhor Fontaine, artista trabalha feito formiga!
E por falar nisso, dedico esta coluna
a um grupo bem especial .
Eles andam chamando a atenção de todo o estado
pela beleza e simplicidade do que produzem.
São quase dez anos de dedicação e superação.
Quem já viu de perto essa gente agindo pode facílmente
achar que a fábula não mentiu, afinal parece diversão.
Não se engane, pra eles a pintura é comunicação, é a inserção
real e por que não diversão.
Trabalho não deveria ser fardo .
Todos temos alguma vocação e no mundo em que vivemos
nenhuma escolha profissional é garantia de nada se não for acompanhada de talento.
E talento não falta nessas mentes coloridas.
Parabéns ao Grupo Mentes Coloridas, que o otimismo de vocês
contagie todas as formigas e cigarras ,trabalhadores incansaveis desse
nosso Vale quase encantado.
Inspiração
Pra mim, inspiração nada mais é do que a
presença de espírito.
É quando o corpo está habitado e todos os
sentidos em alerta, conscientes do ato.
Ato qualquer, seja pintar, tocar, almoçar ou dirigir,
sei lá.
Qualquer coisa que façamos merece o espírito presente
Um ladrão eficiente está sempre alerta, à espreita
Observa e espera o vacilo alheio, assim como
o predador faminto. Um felino quando caça
aglutina os sentidos, corpo e alma juntos
num instante único.
Quando respeitamos a parceria matéria e consciência,
executamos melhor qualquer atividade, tudo
fica inspirado, não importa se for um simples
escovar os dentes ou compor uma sinfonia. A
concentração cria o campo para a inspiração.
Os acidentes e os erros acontecem quando
nos distraímos, geralmente nestas situações nosso
espírito está no passado vasculhando lembranças ou
no futuro imaginando coisas e deixando nosso corpo oco,
vazio, desprovido dessa energia vital.
Experimente andar por uma rua movimentada
e olhar no olho das pessoas na multidão.
A grande maioria parece olhar para dentro
e não para fora. Estão vendo pensamentos, coisas
que irão fazer, sentimentos.
Olham mas não vêem. Desviam o olhar quando
percebem sua atenção. Talvez devêssemos viver
cada dia como se fosse o último, observando cada cena com
atenção e carinho, como quem despede-se.
Algumas máximas merecem sempre ser lembradas.
Fazer inspirado é puro prazer.
A alegria de juntar corpo e alma no tempo presente.
É a vida no tempo real.
Super Mãe
Fecho os olhos e me vejo menino, dez ou doze anos
de idade, sentado ao pé da máquina de costura da minha
mãe, desenhando em folhas espalhadas pelo chão do atelier,
enquanto meus três irmãos brincavam no pátio, sem entender meu
interesse pelos traços.
Minha mãe costurava em uma velha Vigarelli à pedal, e até
hoje lembro do barulho...tec tec tec da correia.
Ela sempre desenhava muito bem, e eu muito atento,
copiava os modelos e as manequins que ela esboçava
Sempre ouvíamos rádio AM de São Paulo, normalmente
a Jovem Pan e cantávamos juntos as canções da programação.
O Barquinho, Upa Neguinho, Toquinho, Vinícius, e por aí vai.
Ela também canta muito bem, com uma rara afinação.
Ao meio dia, almoço. Teresa ia para a cozinha, e eu junto. Meu gosto pela
culinária também foi influência dessa super-mulher.
Desligava o rádio e ligava a TV.
TV Mulher era o cardápio da hora, com direito a trilha sonora
da Rita Lee. Dentro da programação o momento mais esperado por mim e por ela:
Henfil e toda sua irreverência. Às vezes levava sua mãe ao programa,
e sempre dizia:
- Quem tem mãe não tem medo.
E um quadro da Super Mãe, do Ziraldo, maravilhoso, ríamos muito.
Cresci vendo e lembrando desses personagens com respeito e admiração.
Final de outubro, aconteceu em Jundiaí, minha terra natal, a Semana Literária e Ziraldo
foi o patrono. Pois bem, alguém de lá se lembrou desse distante filho da terra e resolveu
prestar-me uma homenagem, por trabalhos que desenvolvo há vários anos em escolas do
município.
Fui animado, comprei até roupa nova e, no dia marcado, Ziraldo não pôde ir.
Recebi meu prêmio simbólico e não pude ficar mais dias para
o esperado encontro.
Pensei, se Henfil e Ziraldo tanto falaram de suas mães e até usaram suas imagens, poque eu não?
Liguei para a Teresa e passei-lhe o compromisso:
Mãe, receba por mim a homenagem. Pela foto no pé da página vocês perceberam
que ela não ficou incomodada.
Valeu Maria Teresa, realmente, quem tem mãe não tem medo.
O gosto das cores
Pode parecer loucura, e talvez até seja
mas vejo cores em coisas, pessoas, lugares...
Cores que não correspondem às captadas pela retina,
mas as sentidas.
Como se tivessem gosto.
Cada cor tem um sabor e cada sensação, suas cores.
O céu do Sul, no inverno é algo especial.
Um azul distinto, limpo, como se usasse uma lente
diferenciada. Se enxerga longe no horizonte,
as imagens são nítidas, tem gosto de funcho.
O Domingo em nossos pagos tem um tom alaranjado
e sabor de sal queimado. Um aroma no ar das cidades.
Parece que todas as churrasqueadas se unem,
num tempero de Domingo.
Crianças brincando, me trazem o amarelo luminoso,
com gosto de tuti-fruti.
O jasmim está para a paz, aquela paz das almas,
do silêncio da morte.
Minha cidade natal sempre foi conhecida pelas compotas
e doces da Cica e suas concorrentes, deixando na
atmosfera um tom goiaba e marrom glacê.
As pessoas têm cores que variam conforme seus espíritos.
Tem gente cinza, marrom, verde...
Um ser humano tem a alma camaleoa e passa de um
cinza doentio ao violeta brilhante com apenas uma
paixãozinha. Sem desdenhar qualquer paixão.
O medo, aquele amarelo queimado, seco e ácido embaixo
da língua, amarelo ouro.
Qual a cor do amor?
E seu sabor?
Se acompanhado de paixão carnal, magenta, que rima
com pimenta na cor e picardia.
Se fraterno, doce como um filho ou amigo irmão.
Amor humanitário, roxo, profundo.
Sabores, cores e amores, realces da vida humana.
Passado, preto e branco, nostálgico, gosto de comida da vó.
Presente, “coma os morangos da vida.”
Futuro, cor de surpresa.
COISAS DO TEMPO
A poucos anos os carros atingiam vertiginosos 20Km horários.
Já era um grande avanço!
Encurtar as distâncias e acelerar o desenvolvimento da raça.
Telefone celular, satélite..
E a internet ?
Uma imensa rede de comunicação instantânea sem nenhum deslocamento
humano.
Armazenamos mais ideias e conhecimentos a partir da informação de acesso rápido.
Tudo parece estar na direção correta para ganharmos tempo.
Porém, algo nos impele a correr sempre mais, e quanto mais tempo ganhamos,
menos o temos.
O computador está lento, o trânsito não anda ou o aparelho está sem sinal.
Parece que entramos no tempo das máquinas, vivendo como tais e
para meus filhos meu processador anda meio devagar.
Quer saber? Que bom amadurecer!
Terei meu tempo de volta.
Viver intensa e calmamente todos os minutos que tenho direito e que
os avanços tecnológicos proporcionem.
Sinto-me privilegiado por ter nascido analógico, e hoje desfrutar a comodidade
digital.
Que a ciência evolua cada dia muito mais para que nos sobre tempo para o humano.
Coisas simples como a arte, o outro, a lua...
Qualquer coisa que nos faça viver mais e melhor.
Afinal, temos pouco tempo e mesmo assim esse é todo o tempo do mundo,
como na canção do Renato.
Vai ver que contemplação é coisa de coroa!
Que seja então.
Torna teu fardo leve
Com um crescimento populacional sem controle
e um sistema político voltado apenas para si
é natural que tenhamos muitos excluídos.
Essa multidão à quem me refiro, vem aos poucos,
vestindo o manto da invisibilidade.
Uma ferida social que insistimos em não enxergar.
Afinal, cada um de nós carrega fardos do dia-a-dia,
cada vez mais exigente e competitivo.
Um homem na sinaleira vestido de palhaço, com
cores que fazem meus quadros parecerem
desbotados, atira malabares com alguma
precisão, dança e brinca. Tudo para ser notado.
- Ei, você, me ajude, estou aqui.
Outros tantos carregam coisas.
Coisas que vão encontrando, lixo para uns,
luxo para outros.
Sobras e restos vão se reciclando.
Alguns têm um cavalo como cúmplice. Outros
desempregam o animal e executam a função.
Lata, papel, pneu, filhos...
E assim levam a vida, carregando coisas,
atrapalhando o trânsito.
E Você, Que Peso Carrega?
A jornalista e fotógrafa Andrea Hilgert registrou
em imagens, pessoas e seus pesos. Do carroceiro
no centro da cidade ao vendedor de bolas coloridas
na praia.
Tornando-os visíveis talvez diminua o peso de seus
fardos , afinal, cuidamos do que enxergamos.
Pensei nos meus próprios pesos,
culpas, mágoas, frustrações.
Tudo aquilo que carrego em excesso sob os ombros
Aliviar a carga me parece vital.
500 anos de quem?
Quando criança, ficava horas olhando fotos nos livros
de história maravilhado com as imagens de pessoas pintadas
com cores exuberantes, cheias de adornos
e que moravam na grande floresta.
Animais exóticos e crianças que pescavam e nadavam
em águas cristalinas como suas próprias almas e puras
como a minha imaginação.
Eu só não entendia o porquê de tanto interesse no ouro
com tanta coisa mágica para se querer...
Cresci com essas imagens e sem que eu percebesse
foram invadindo a minha pintura.
Em 1999 decidi conhecer a tal floresta e sua gente.
Voei até o Xingu. Estava tudo lá,
minha imaginação não me traíra.
Um Parque Nacional do tamanho da Bélgica, com 36 aldeias
e 14 etnias, quase 10.000 índios.
Participei da mais importante festa do Xingu, o Kuarup.
A convite do cacique Morená
pintei a pele de 12 índios para a cerimônia.
Desenhava tudo o que podia como se as imagens fossem fugir,
tal qual recordações.
Coordenei junto às crianças da aldeia Yawalapiti
a pintura de uma grande tela de 5 metros
que recebeu o nome de "Espelho”.
A Arte do Vazio
Querido leitor, apesar do título ser pitada de arte,
confesso ter sempre uma preocupação em trazer
algo novo ou, pelo menos coerente para este espaço.
Espaço que julgo muito importante por sua abrangência
e, como aprecio a boa cozinha, sei que às vezes,
uma pitada a mais ou a menos compromete o prato.
O artista vive do público e para o público há centenas
de anos. Hora ovacionado, hora vaiado, bem
compreendido ou não. Não importa. Seu diálogo sempre
será público. Daí a importância do espectador. Para
que teatro sem platéia?
Por esse motivo comecei este desabafo dizendo
“querido leitor.” Qual seria meu vazio se minhas divagações
não fossem lidas ou vistas por alguém?
Para mim, o vazio, o NADA é a matéria-prima para
a criação. É o princípio, o gênesis, o meio para a
construção da arte. Mas seria o fim?
Imagine você, ao abrir essa revista, deparar-se com
a minha página em branco. NADA, simplesmente vazia
Qualquer um pensaria talvez em erro de impressão, ou
então, em protesto à algo, sabe como são esses artistas...
Falta de criatividade ou NADA, a dizer. O que passa
na cabeça dessa criatura?
Pois bem, só que se assim eu tivesse feito nesta edição da Sabores,
saibam que seria um ato de extrema contemporaneidade.
Pasmem, mas é exatamente isso.
Até pensei nesse ousado ato, afinal causaria polêmica,
indignação, quem sabe?
A indignação parece ser o objetivo principal do
artista Pós Qualquer Coisa. Não o fiz e nem o faria por
respeito a quem me ouve, vê, lê.
Basta abrir um jornal ou ligar a TV ou o computador para ter mil
motivos para indignar-se. Gosto muito de Zeca Baleiro e fico
feliz por ele não ser assim, tão moderninho. Já pensou
chegar em casa e descobrir que seu novo CD não traz NADA?
Nenhuma nova canção, apenas o silêncio?
Pois a Bienal de São Paulo e sua contemporânea curadoria
resolveu pregar essa peça nessa recente edição.
E o pior é que esse negócio do “NADA” também não tem “NADA” de novo.
Cazuza tinha razão,”eis um museu de grandes novidades.”
Os pintores, escultores e desenhistas foram definitivamente banidos
do mundo da arte.
Somos seres ultrapassados e carregamos a maldição da plasticidade.
Nem mesmo consigo freqüentar exposições pois sinto-me
um idiota em meio a tanta cultura e, eu não entendo NADA.
E olha que eu me esforço, mas mesmo depois de ler um texto imenso
com letrinhas bem miúdas, tão difíceis de serem lidas tal qual seu
conteúdo, ainda assim, aquele tijolo no meio da sala continua sendo
um tijolo para mim.
Será que realmente não entendo NADA de arte ou
essa arte não tem mesmo NADA a dizer?...
Se a moda pega, corremos o risco de ter, no país do futebol,
grandes jogadores que nunca pisaram num gramado.
Arte é trabalho e, muito trabalho.
Criatividade
a criatividade é um instrumento indispensável
no mundo das artes.
Não apenas como um artifício de inovação mas na
maioria dos casos é a única maneira de viabilizar um projeto.
O país vive uma realidade que impõe à cultura uma condição supérflua.
O carro, a geladeira, a tv são prioridades o que é perfeitamente compreensivel.
As ideias fervilham mas quase sempre os recursos são escassos e
realiza-las exige muito esforço e principalmente criatividade.
Não deixamos de criar nunca e as dificuldades acabam por estimular a produção
A História oferece inúmeras provas desse fazer artístico.
Papéis reciclados, embalagens vazias, sucata...
Mês passado pudemos apreciar uma mostra da Rosana Almendares e
da Susane Wongnon em que a matéria prima utilizada nas obras era
uma mistura de talento, reciclagem e criatividade.
Toda essa minha conversa foi apenas preparativo para um pedido
muito especial que quero fazer à uma classe de profissionais.
Os políticos.
Peço aos nossos eleitos que olhem com atenção para a arte e suas
formas de produção.
Quem sabe isso possa inspira-los e a criatividade ajude também na tarefa
de governar.
Que os poucos recursos que também os afetam não sejam mais justificativa para
o não fazer
Assinar uma obra bem feita causa uma sensação indiscritivel,
Boa sorte nessa empreitada e contamos com vocês.
Termino essa coluna agradecendo o Flavio Sholles, o Marciano Schimidt
e o Carlos Alberto de Oliveira pela exposição de tirar o fôlego.
Vocês ja são eternos.
Não conseguia compreender o fascínio de certas pessoas por uma simples bebida feita de uva fermentada.
Densidade, aroma, cor..
E os valores então! Como é que uma coisa que parecia tão igual à outra podia custar tantas vezes mais?
Meu conceito era pré, e por isso mesmo, perdi um tempo valioso de convívio com o bom e velho vinho.
Arte e vinho possuem semelhanças.
Um bom instrumento para apreciar ambos é a comparação.
Nunca saberemos suas diferenças sem esperimentá_los.
Para isso devemos perder o medo do não saber, ninguém sabe tudo, nem de vinho, nem de arte e os maiores entendidos certamente tiveram sua primeira vez.
Quantas vezes acontece de uma música que nem demos bola, de repente parecer nossa própria trilha sonora?
Confesso que ainda hoje, depois de quase trinta anos de arte, ainda sinto aquele desconforto de estar diante de certas obras e não sacar nada, enquanto outros, com caras e bocas intelectocomtêmporaneas parecem ver o inatingível.
Sei lá, depois dos quarenta tenho preferido confiar na intuição.
Uma dica é olhar tudo, sem preconceito, afinal todo estilo tem seu clássico.
Bienais, salões, exposições, somente olhe, sem tocar nem opinar, aquele olhar sério, de quem está compenetrado.
E se acontecer de algo te tocar a alma, mesmo que ainda não muito claramente, bingo! Eis a arte e seus sinais. O exercício regular certamente ampliará seu conhecimento e sensibilidade. Aprecie sem moderação.
Quanto ao vinho, qual é mesmo o melhor?
Dizem que é o que você gosta.
Pode ser tinto, branco, frutado, com ou sem bolinhas.
O importante é que seja mesmo vinho!
Beba com moderação.
Mai Bavoso